segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O Jogo da Amarelinha (Julio Cortázar)

Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno da tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha. Tu me olhas, de perto tu me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais perto e nossos olhos se tornam maiores, aproximam-se, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando indistintas, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce; e, se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu te sinto tremular contra mim, como uma lua na água. (O Jogo da Amarelinha. Julio Cortázar.)

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

ARTE DE VIVER

Ninguém vive neste plano impunemente. Cada experiência, que seja sempre digna de um poema.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

RITOS

Os rituais do cotidiano me são um tanto desafiadores. Ao mesmo tempo, me inspiram de tal maneira, que chego até a questionar seus motivos e propósitos. Por outro lado, por serem protagonistas de uma certa monotonia, costumo questionar sua eficácia. (Eu e meu eu lírico). Minha reflexão pode parecer simplória e/ou confusa aos olhos dos leitores carentes de lentes de aumento neste mundo regido e visto por uma ótica artística e estética. Apesar de tudo, estes rituais são necessários para dar um norte ao ser humano e colocar arte nas pinceladas do cotidiano, valoriza ainda mais esta grande obra que é viver.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

ESBOÇO DE PERSONAGEM

Se não fosse eu mesma, seria uma cachoeira ou qualquer força da natureza. Um pingo, um chuvisco. Asfalto molhado e seus significados. Uma fada montada em cavalo alado. Donzela de Príncipe Encantado Bailarina em carrossel, cortejando a dramaturgia do cotidiano. Colombina sem Pierrot, perdida pelos palcos da vida. Dama da noite em ritos de côrte. Delicada flor da manhã. Pétala perolada, diva de Don Juan. Se não fosse eu mesma, não seria nada disso. Apenas estilhaços a esmo.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

ENIGMA

Em seus silêncios, os tristes sonham sozinhos Que vazios os preenchem?

domingo, 16 de janeiro de 2011

Somos feitos da evanescência da vida. Esta vida efêmera e fugaz. O que nos resta, através dos séculos, é a consciência e o amor.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Eu outra vez na condição feto, dispenso por hora, meu corpo ereto domesticado e idealizado por desafios da vida mundana. E tenho dito. 11/01/2011